já tentei ser vegetariano há uns anos. um texto como esse teria me dado mais força de vontade na época.
mas, de maneira menos radical, o respeito ao bicho enquanto vivo e a dignidade na sua morte já seriam um grande avanço.
Estima-se que o consumo de carne e de produtos de origem animal acarrete o sacrifício de bilhões de animais por ano.
A demanda por esses produtos intensificou os sistemas de pecuária a fim de que um número cada vez maior de animais seja criado a um custo cada vez menor, no que se inclui a conveniência de que sejam mortos com a menor idade possível.
Não há exagero em afirmar que o ser humano carnívoro, atualmente, alimenta-se dos filhotes dos outros animais, inseridos em uma escala de produção que lhes retira qualquer individualidade e dignidade que um ser vivo pudesse ter.
De fato, não bastasse o triste e precoce fim que os espera, em suas breves vidas serão impedidos de exercer, ainda que de forma mínima, o comportamento natural inscrito em seus genes.
Nesse tipo de indústria, são práticas corriqueiras os procedimentos invasivos sem analgesia, tais como extração de dentes, descorna, castração e debicagem, o aprisionamento perpétuo em gaiolas e baias de cimento que impossibilitam a movimentação dos animais, o desmame precoce, o afastamento imediato de filhotes de sua mãe, a criação de animais suspensos para evitar o desenvolvimento dos músculos, o transporte em engradados ou em caminhões superlotados, a sangria sem adequada insensibilização etc.
A ciência, contudo, há muito demonstrou que os animais são seres sencientes, ou seja, capazes de experimentar sensações e emoções tais como dor, medo e tristeza, assim como são dotados de personalidades próprias e de sociabilidade.
Sem qualquer sombra de dúvida, não são indiferentes ao martírio a que estão submetidos.
Cada vez que uma pessoa entra no supermercado ou no restaurante e consome esse tipo de produto, está votando para que continue o sistema; o produtor, de seu turno, vai fazer tudo o que for necessário para diminuir os seus custos e obter um maior lucro, mesmo que seja à custa da sanidade física e psicológica dos animais.
Por se tratar de uma realidade que não está ao alcance dos olhos do consumidor, ao menos de sua grande maioria, pode-se dizer que este desconhece o que ocorre na granja, que não sabe que está consumindo produtos oriundos de animais submetidos a uma vida mínima e que não o faria se disso tivesse ciência.
Na verdade, a realidade é escondida atrás de embalagens coloridas e assépticas, e de propagandas que enganosamente mostram animais bem-tratados e felizes.
Daí que o acesso do consumidor a essas informações é um direito que não lhe deve ser subtraído; por outro lado, deve-se exigir que as autoridades públicas competentes intervenham na questão, a exemplo do que ocorre, por exemplo, na Europa, onde continuamente são estabelecidas regras para assegurar o efetivo bem-estar dos "animais de consumo".
Só assim se poderá atingir um nível ético condizente com uma sociedade que se pretende civilizada, e quiçá um dia a alimentação do ser humano não se baseie mais na morte e no sofrimento de outros seres vivos.
JAIME NUDILEMON CHATKIN | Promotor de Justiça
fonte:
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a1670066.xml&template=3898.dwt&edition=8750§ion=101
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