Quarta-feira, Novembro 21, 2007

uma realidade escondida

já tentei ser vegetariano há uns anos. um texto como esse teria me dado mais força de vontade na época.
mas, de maneira menos radical, o respeito ao bicho enquanto vivo e a dignidade na sua morte já seriam um grande avanço.



Estima-se que o consumo de carne e de produtos de origem animal acarrete o sacrifício de bilhões de animais por ano.

A demanda por esses produtos intensificou os sistemas de pecuária a fim de que um número cada vez maior de animais seja criado a um custo cada vez menor, no que se inclui a conveniência de que sejam mortos com a menor idade possível.

Não há exagero em afirmar que o ser humano carnívoro, atualmente, alimenta-se dos filhotes dos outros animais, inseridos em uma escala de produção que lhes retira qualquer individualidade e dignidade que um ser vivo pudesse ter.

De fato, não bastasse o triste e precoce fim que os espera, em suas breves vidas serão impedidos de exercer, ainda que de forma mínima, o comportamento natural inscrito em seus genes.

Nesse tipo de indústria, são práticas corriqueiras os procedimentos invasivos sem analgesia, tais como extração de dentes, descorna, castração e debicagem, o aprisionamento perpétuo em gaiolas e baias de cimento que impossibilitam a movimentação dos animais, o desmame precoce, o afastamento imediato de filhotes de sua mãe, a criação de animais suspensos para evitar o desenvolvimento dos músculos, o transporte em engradados ou em caminhões superlotados, a sangria sem adequada insensibilização etc.

A ciência, contudo, há muito demonstrou que os animais são seres sencientes, ou seja, capazes de experimentar sensações e emoções tais como dor, medo e tristeza, assim como são dotados de personalidades próprias e de sociabilidade.

Sem qualquer sombra de dúvida, não são indiferentes ao martírio a que estão submetidos.

Cada vez que uma pessoa entra no supermercado ou no restaurante e consome esse tipo de produto, está votando para que continue o sistema; o produtor, de seu turno, vai fazer tudo o que for necessário para diminuir os seus custos e obter um maior lucro, mesmo que seja à custa da sanidade física e psicológica dos animais.

Por se tratar de uma realidade que não está ao alcance dos olhos do consumidor, ao menos de sua grande maioria, pode-se dizer que este desconhece o que ocorre na granja, que não sabe que está consumindo produtos oriundos de animais submetidos a uma vida mínima e que não o faria se disso tivesse ciência.

Na verdade, a realidade é escondida atrás de embalagens coloridas e assépticas, e de propagandas que enganosamente mostram animais bem-tratados e felizes.

Daí que o acesso do consumidor a essas informações é um direito que não lhe deve ser subtraído; por outro lado, deve-se exigir que as autoridades públicas competentes intervenham na questão, a exemplo do que ocorre, por exemplo, na Europa, onde continuamente são estabelecidas regras para assegurar o efetivo bem-estar dos "animais de consumo".

Só assim se poderá atingir um nível ético condizente com uma sociedade que se pretende civilizada, e quiçá um dia a alimentação do ser humano não se baseie mais na morte e no sofrimento de outros seres vivos.

JAIME NUDILEMON CHATKIN | Promotor de Justiça

fonte:
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a1670066.xml&template=3898.dwt&edition=8750§ion=101


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